Homem em tratamento contra vício em bets fala sobre superação e prejuízos: 'Perdi minha família'

  • 19/09/2026
(Foto: Reprodução)
Paciente em tratamento contra vício em jogos de aposta fala sobre recuperação e prejuízos “Eu já estava no fundo do poço, tinha perdido minha família, perdido o respeito de todos.” O relato é de um morador de Salto (SP), que não quis se identificar, em tratamento contra a dependência em apostas esportivas, comumente chamadas de bets. O que começou como diversão há cerca de nove anos se transformou em dependência, dívidas e afastamento da esposa e dos filhos. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Após os prejuízos se agravarem, ele decidiu se internar e, desde então, segue em recuperação. Atualmente, ele é paciente de um hospital terapêutico localizado em Capela do Alto (SP). “Comecei a apostar em bets enquanto trabalhava em uma empresa, há cerca de nove anos. No início, era por diversão. Fui ganhando e perdendo, sempre apostando pouco dinheiro, até o dia em que ganhei uma quantia maior. Foi quando me empolguei”, relata. Compulsão por jogos de aposta causa graves problemas de saúde mental e provoca afastamentos do trabalho Reprodução/EPTV LEIA TAMBÉM Câmara de Sorocaba aprova projeto que proíbe propaganda de bets em espaços públicos Casal de influenciadores é alvo de operação contra plataformas de cassino virtual Influenciadora suspeita de movimentar R$ 28 milhões 'agenciava' esquema para divulgação de jogos online A partir daí, segundo ele, os valores das apostas aumentaram e os primeiros prejuízos começaram a aparecer. Com o avanço do vício, o problema deixou de atingir apenas a vida financeira e passou a afetar também a relação com a família. “Os problemas familiares começaram, problema em casa com a esposa, perdendo dignidade, perdendo o respeito, porque eu comecei a tirar dinheiro de contas para estar apostando. E cada vez mais o vício foi me corroendo”, diz. De acordo com o paciente, a situação se agravou quando ele passou a contrair dívidas com agiotas. “Chegou em um ponto que comecei a me envolver com agiotas, comecei a ficar devendo para todo mundo. E assim, cada vez me afundando mais”, relembra. No fim de 2025, ele conta que já havia perdido a família e o respeito das pessoas próximas. Foi quando decidiu procurar ajuda. A internação durou três meses. “Foram três meses dolorosos, longe da família, longe dos filhos. E assim, é um processo que machuca a gente. Porque você tem que começar tudo do zero, a ganhar a confiança das pessoas, procurar um novo serviço, e ganhando nome na praça aos poucos e devagar, porque você está com a imagem totalmente queimada. É muito complicado”, relata. “Apesar de eu estar enfiado no vício, eu sempre fui um pai presente, eu nunca tinha ficado tanto tempo longe dos meus filhos, e a parte mais dolorosa de tudo isso foi afastar as pessoas que eu mais amo por consequência de uns erros meus”, acrescenta. Recomeço Depois de enfrentar problemas financeiros, familiares e o período de internação, o paciente afirma que ainda está reconstruindo a vida e recomenda que outras pessoas procurem ajuda antes que a dependência provoque prejuízos maiores. “E o que eu aconselho para as pessoas que estão perdendo controle sobre as apostas, é para enquanto é tempo. É um dinheiro de ilusão, você não vê a cor dele. Aquela velha história: tudo que vem fácil, vai fácil”, finaliza. Quando apostar vira um problema? A história do paciente mostra como o comportamento pode deixar de ser recreativo e passar a provocar prejuízos em diferentes áreas da vida. Segundo o psiquiatra Rafael Madureira, de Sorocaba (SP), porém, não é apenas a quantidade de dinheiro ou a frequência das apostas que determina quando o jogo se torna um transtorno. “Temos uma condição dentro do DSM, que é o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, que a gente chama de transtorno do jogo. Ele está no capítulo de transtornos relacionados a comportamentos aditivos", explica. De acordo com Madureira, são considerados nove critérios na avaliação: Preocupação frequente com apostas; Necessidade de apostar valores cada vez maiores para obter a mesma excitação; Tentativas frustradas de controlar, reduzir ou interromper o jogo; Irritação ou inquietação ao tentar parar; Apostar para escapar de problemas ou aliviar sentimentos desagradáveis; Tentar recuperar perdas financeiras com novas apostas; Mentir para esconder o envolvimento com o jogo; Prejudicar relacionamentos, trabalho ou estudos por causa das apostas; Depender financeiramente de outras pessoas para lidar com dívidas causadas pelo jogo. Psiquiatra Rafael Madureira de Sorocaba (SP) fala sobre vícios em bets Arquivo Pessoal Rafael explica que, para o diagnóstico, é necessário apresentar pelo menos quatro desses critérios durante um período de 12 meses, além de sofrimento ou prejuízo significativo. “A pessoa que aposta ocasionalmente consegue estabelecer limites, consegue interromper a atividade, consegue manter as apostas dentro de uma dimensão recreativa sem que exista esse prejuízo relevante", diz. Além disso, um dos comportamentos comuns, segundo o psiquiatra, é a tentativa de recuperar o dinheiro perdido por meio de novas apostas. “A pessoa muitas vezes vai tentar perseguir essa perda, vai tentar recuperar o dinheiro que foi perdido. Então surgem algumas distorções cognitivas. A pessoa acredita que, depois de várias perdas, agora está na vez de ganhar. Pensa: ‘Se eu parar agora, perdi tudo, mas, se eu fizer mais uma jogada, ainda consigo recuperar’", pontua. Apostas esportivas; bet Joédson Alves/Agência Brasil O que acontece no cérebro De acordo com o médico, o transtorno do jogo não está ligado a uma única região do cérebro. O comportamento envolve circuitos relacionados ao sistema de recompensa, à motivação, à aprendizagem, à tomada de decisão e ao controle dos impulsos. A dopamina também participa desse processo, principalmente na antecipação, na motivação e na aprendizagem relacionadas às recompensas, explica o especialista. “Não é uma descarga de dopamina. Como esses resultados são imprevisíveis, existe a possibilidade de ganhar, os sinais associados ao jogo e a expectativa do resultado. Tudo isso faz com que a aposta vá se tornando cada vez mais difícil de ignorar", diz. Rafael também reforça que a dependência não deve ser entendida apenas como uma questão de disciplina individual. “Aquela questão do ‘jogue com responsabilidade’ coloca como se isso dependesse exclusivamente de uma disciplina individual. Claro que existe uma responsabilidade individual, mas isso não é suficiente para explicar um transtorno aditivo", diz. “A pessoa pode estar lidando com mecanismos de aprendizagem, impulsividade, sofrimento emocional, a própria publicidade constante e a plataforma desenhada de uma forma para fazer apostar cada vez mais. Então, isso é extremamente delicado", pontua. O transtorno do jogo também pode aparecer associado a outros problemas de saúde mental, de acordo com Rafael. Estudos apontam que até 82% das pessoas com transtorno do jogo apresentam algum outro transtorno psiquiátrico associado. Jogo do Tigrinho Reprodução/TV Anhanguera O psiquiatra explica que cerca de um terço apresenta transtorno relacionado ao uso de substâncias, outro terço tem transtorno de humor e outro, transtorno de ansiedade. Essa relação, no entanto, pode acontecer nos dois sentidos: uma pessoa que já enfrenta ansiedade, depressão ou um período de estresse pode recorrer às apostas como uma forma de aliviar o sofrimento. “Não é que o jogo vai necessariamente causar esses transtornos. Às vezes, a via é o contrário. A pessoa que já está em um sofrimento psíquico vai acabar buscando no jogo algum tipo de conforto, algum tipo de solução", acrescenta. Problemas de sono também são comuns, já que as plataformas podem ser acessadas durante todo o dia, segundo o especialista. Rafael ainda chama a atenção para a relação entre o transtorno do jogo e o risco de suicídio. “Uma meta-análise recente encontrou uma associação entre o transtorno do jogo e maior risco de ideação suicida, tentativa de suicídio e morte por suicídio.” De acordo com o psiquiatra, algumas diretrizes internacionais recomendam que profissionais perguntem diretamente sobre pensamentos suicidas a pacientes que apresentam prejuízos importantes relacionados ao jogo. Aumento na busca por atendimento Saúde Premium, Hospital Terapêutico Integrado localizado em Capela do Alto (SP) Divulgação Segundo Davi Tomasi, diretor financeiro e comercial do Saúde Premium, o hospital terapêutico que tratou o paciente ouvido pela reportagem, houve aumento significativo nas internações relacionadas à dependência em bets, principalmente nos últimos dois anos. A maior parte dos pacientes tem entre 20 e 40 anos, mas não há um perfil sociocultural específico. “Tem atingido todas as classes sociais, muito provavelmente pelo fácil acesso a esses jogos de apostas", diz. Ainda conforme o diretor, a maioria dos pacientes procura ajuda quando os prejuízos financeiros e familiares já são significativos. "Quando a gravidade aumenta, as dificuldades em relação ao tratamento aumentam proporcionalmente", explica. Segundo Davi, o hospital tem observado casos acompanhados de outros transtornos mentais, como ansiedade, depressão e uso de álcool ou outras substâncias. Jogos de aposta TV Gazeta Como funciona o tratamento? De acordo com Rafael, o atendimento é individualizado e pode envolver psicólogo, psiquiatra e outros profissionais. Entre as estratégias, o especialista cita a terapia cognitivo-comportamental, que trabalha gatilhos, controle dos impulsos e prevenção de recaídas. “A entrevista motivacional também pode ajudar a pessoa a reconhecer os prejuízos provocados pelas apostas. A ideia não é ser uma discussão, nenhum sermão, mas conseguir fazer com que a pessoa enxergue quais são os prejuízos associados: o que ela está perdendo em dinheiro, em tempo, em sono, em relações e em tranquilidade”, explica. Também podem ser adotadas medidas práticas para reduzir o acesso às apostas e evitar recaídas, de acordo com o médico. “Outra coisa que ajuda muito são as barreiras práticas, como bloquear aplicativos e sites, estabelecer limites financeiros e retirar cartões. Também temos os Jogadores Anônimos, um grupo de ajuda mútua que pode contribuir com uma rede de apoio”, afirma Rafael. O psiquiatra ainda cita a plataforma centralizada de autoexclusão do Ministério da Fazenda, que permite bloquear o acesso às casas de apostas e impedir novas contas vinculadas ao CPF. Em alguns casos, medicamentos podem ser utilizados para auxiliar no controle de comportamentos impulsivos. “Não temos nenhum tratamento aprovado especificamente para o transtorno do jogo. O que temos são alguns medicamentos, como a naltrexona e o topiramato, que podem ajudar a controlar o comportamento mais impulsivo”, finaliza. Plataformas clandestinas de jogos de apostas Reprodução/Redes Sociais Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM Davi Tomasi O diretor financeiro e comercial do Saúde Premium, o hospital terapêutico que tratou o paciente ouvido pela reportagem, , afirmou ao

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/2026/09/19/homem-em-tratamento-contra-vicio-em-bets-fala-sobre-superacao-e-prejuizos-perdi-minha-familia.ghtml


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