Governo federal foi alertado sobre falta de oxigênio em Manaus antes do colapso, diz MPF
14/01/2026
(Foto: Reprodução) Crise do oxigênio completa 5 anos; MPF afirma que governo federal já sabia da escassez. Vídeo: Lucas Macedo/g1 AM
O Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação civil pública para apurar a responsabilidade da União, do Estado do Amazonas e do município de Manaus pela crise do oxigênio registrada durante a pandemia da Covid-19. A informação foi repassada ma sede do MPF, em Manaus, nesta quarta-feira (14).
Segundo o procurador da República Igor Jordão, documentos da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) mostram que o governo federal foi alertado em 28 de dezembro de 2020 sobre a escassez de oxigênio na rede pública de saúde da capital.
Mesmo com o aviso, o colapso ocorreu em 14 de janeiro de 2021. Hospitais ficaram sem cilindros para atender pacientes internados. O MPF destaca que o número de mortes em janeiro daquele ano foi muito superior ao registrado nos meses anteriores, o que reforça a gravidade da situação.
O g1 questionou o Ministério da Saúde e Governo do Amazonas sobre o andamento das reparações decorrentes da decisão judicial e o que foi feito a partir deste informativo da Abin, mas até a publicação desta reportagem não obteve resposta.
Ação civil pública
O MPF pede busca reparação pecuniária e simbólica às vítimas e familiares, sem caráter criminal. Uma decisão provisória já determinou que União, Estado e Município identifiquem os atingidos e ofereçam programas de assistência psicossocial. Agora, o MPF pede julgamento definitivo de mérito e tenta firmar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para acelerar o pagamento de indenizações.
➡️ Próximos passos
De acordo com Igor Jordão, novos documentos serão protocolados na Justiça Federal para reforçar que a União, o Estado e o Município tinham ciência da crise antes do colapso.
“O que buscamos é que os órgãos públicos reconheçam sua responsabilidade, formalizem desculpas e iniciem reparações financeiras, além da construção de espaços de memória coletiva”, disse.
Crise do oxigênio completa 5 anos; MPF afirma que governo federal já sabia da escassez
Foto: Lucas Macedo/g1 AM
LEIA TAMBÉM:
O dia em que faltou ar: crise do oxigênio em Manaus completa cinco anos
➡️Colapso da saúde e falta de oxigênio
Familiares reclamam da falta de oxigênio para seus pacientes internados no hospital.
Divulgação
No início de janeiro de 2021, Manaus enfrentava um crescimento exponencial de casos graves de Covid-19, impulsionado por uma segunda onda da pandemia e pela circulação de variantes mais transmissíveis do vírus.
A demanda por oxigênio, usada para manter pacientes com dificuldades respiratórias, aumentou vertiginosamente, muito além da capacidade de produção local e dos estoques disponíveis.
Segundo dados obtidos pelo g1 em 2021, o consumo de oxigênio em períodos sem pico de internação era, em média, de 15 a 17 mil metros cúbicos por dia. No dia 14 de janeiro, o consumo, no pico das internações, foi de 76,5 mil metros cúbicos.
O oxigênio usado nos hospitais do estado era fornecido pelas empresas White Martins, Carbox e Nitron, com produção total de 28,2 mil metros cúbicos diários. O déficit foi de 48,3 mil metros cúbicos.
Entenda o déficit de oxigênio em Manaus
Guilherme Luiz Pinheiro/G1
Com hospitais superlotados e os estoques esgotados, unidades de saúde passaram a reportar que não tinham mais oxigênio suficiente para atender todos os pacientes. O Serviço de Pronto Atendimento (SPA) do Alvorada fechou as portas após atingir a capacidade de atendimento.
Acompanhantes denunciaram o descaso com os pacientes que precisavam de oxigênio. Familiares de pessoas internadas formaram longas filas em frente a fornecedores privados na tentativa de comprar cilindros, enquanto hospitais apelavam por ajuda.
A partir daquele dia, mais de 500 pacientes foram transferidos às pressas para hospitais de outros estados brasileiros em aeronaves da Força Aérea e em transportes civis, em uma tentativa de aliviar a pressão sobre os hospitais locais.
Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) informou que, desde o período mais crítico da pandemia, o Governo do Amazonas vem adotando ações estruturantes para fortalecer a rede pública de saúde, com foco na ampliação da capacidade assistencial, na descentralização de serviços e no aprimoramento da gestão em situações de emergência sanitária. Entre as medidas implementadas estão: a expansão da infraestrutura hospitalar, o fortalecimento do parque tecnológico, a implantação de usinas de oxigênio em unidades de saúde, inclusive no interior do estado, além da criação e consolidação de protocolos operacionais voltados à resposta rápida em cenários de crise.
Praça Anjo da Esperança foi inaugurada em 2025 como forma de homenagear vítimas da Covid-19 e profissionais da linha de frente em Manaus.
João Viana/Semcom