Construtora de prédio que desabou tem histórico de golpes milionários e atraso na entrega de casas há 3 anos em SP

  • 17/09/2026
(Foto: Reprodução)
Obras de condomínio de casas da New Home na Avenida Padres Olivetanos nunca foram concluídas Reprodução/Google Street View Alvo de investigação policial após o desabamento de um prédio que matou seis pessoas, as construtoras New Home e Hastiforme têm vários boletins de ocorrência por estelionato registrados na Zona Leste de São Paulo. O g1 localizou um grupo de cerca de 20 clientes que acusam a construtora de estelionato por não entregar imóveis prometidos desde 2023 e não devolver o dinheiro pago pelos compradores. Juntos, eles calculam mais de R$ 4 milhões em prejuízos. Os imóveis ficam todos na Zona Leste da capital, mesma região onde ocorreu o desabamento do edifício em construção, na Vila Granada, na região da Penha. Segundo os clientes, várias obras da empresa foram embargadas porque a construtora iniciava os empreendimentos sem o devido alvará de construção aprovado pelas autoridades municipais de São Paulo. Prefeitura de SP paralisa 29 empreendimentos de construtoras investigadas após desabamento em obra na Zona Leste Um dos compradores é o comerciante Alexandre Viveiros, que processa a New Home na Justiça após a empresa ficar com mais de R$ 380 mil de suas economias familiares sem entregar o imóvel comprado em 2023 por R$ 650 mil. Viveiros contou ao g1 que vendeu o apartamento onde morava com a esposa e a filha para dar entrada em um sobrado que seria construído dentro de um condomínio de 12 casas na Avenida Padres Olivetanos, na região da Penha. A entrega estava prevista para o fim de 2024, mas a obra foi embargada pela Justiça de São Paulo porque apresentava riscos para uma escola infantil particular que fica ao lado. Segundo Viveiros, a construtora nem sequer avisou os clientes que haviam contratado a empresa. “Desde 2024, eles vinham arrumando várias desculpas para justificar o atraso na entrega. Nós fomos morar na Praia Grande para tentar economizar dinheiro e pagar as parcelas do contrato, depois da entrada, mas o sobrado nunca ficava pronto. A gente só descobriu o embargo da obra num dia que subimos para São Paulo, passamos em frente e vimos uma decisão judicial de embargo colado do lado de fora da construção”, afirmou. A escola apresentou reclamação na Justiça dizendo que a obra, mal gerida, provocava rachaduras do outro lado do muro, oferecendo riscos para as crianças do maternal que estudavam no local. O risco foi constatado por um laudo particular contratado pela escola e também por decisões da Prefeitura de São Paulo que decretaram a interdição parcial da obra devido à falta de segurança. Fotos do muro e das paredes da escola rachadas, com infiltrações, foram anexadas ao processo. O caso levou a juíza Vivian Bastos Mutschaewski a decretar o embargo liminar da construção em 3 de abril de 2025. Obra paralisada da New Home na Rua Rondonópolis, na Penha Reprodução/TV Globo Nesta quarta-feira (16), a Subprefeitura da Penha fez uma vistoria na obra e voltou a determinar sua interdição devido ao risco de acidentes. "O não atendimento à presente determinação implicará na requisição de auxílio policial, e na abertura de inquérito policial", diz a decisão publicada no Diário Oficial do município. A escola infantil vizinha também será interditada. “Desde o embargo, a gente tenta reaver o dinheiro e não conseguimos, através do destrato contratual. A minha mulher foi bloqueada pela empresa e não conseguiu mais contato para negociar. Registramos boletim de ocorrência por estelionato e estamos buscando reaver o dinheiro na Justiça. Já são quase dois anos de briga judicial, sem solução. Enquanto isso, a gente está morando de aluguel porque fomos vítimas de golpistas e perdemos todas as nossas economias”, disse o empresário. Investigados pelo desabamento Quatro pessoas devem ser indiciadas pelo desabamento na Penha Três alvos da ação na Justiça estão na lista de indiciados pela Polícia Civil por homicídio com dolo eventual após o desabamento que matou seis pessoas no prédio da Rua Tequici. São eles: Ronaldo dos Santos Vivaqua, sócio oculto da Construtora New Home Incorporadora; Cristiano Salgado Vivaqua, engenheiro responsável pela obra que desabou e dono da Hastiforme Projetos e Construção (filho de Ronaldo); Isis de Freitas Rodrigues Brandão, arquiteta idealizadora do projeto de construção do prédio e dona da New Home Incorporadora (esposa da Cristiano). Dos três, apenas Ronaldo dos Santos Vivaqua está preso. Cristiano e a esposa dele, Isis, estão foragidos. Além dos empresários, a servidora municipal Viviane Rodrigues de Palma, que em 2024 autorizou a continuidade das obras no edifício que ruiu, também deve ser indiciada pela polícia. Ela foi afastada do cargo por 120 dias pela prefeitura. Ronaldo dos Santos Vivaqua, Isis de Freitas Rodrigues Brandão e Cristiano Salgado Vivaqua, os três responsáveis pela obra que desabou na Penha, Zona Leste de São Paulo. Reprodução Clientes relatam prejuízos milionários O médico Erick Cosme também é uma das vítimas da Construtora New Home. Ele comprou uma casa de vila da empresa e pagou, antes de receber o sobrado, cerca de R$ 200 mil dos R$ 650 mil que o imóvel custava, no início de 2024. A promessa de entrega era para o fim daquele ano. Desde então, ele tenta localizar os três envolvidos para reaver parte do dinheiro investido no negócio. “Eles são golpistas profissionais. Quando minha advogada foi atrás da New Home, descobriu que a empresa estava inativa. Só que ela também investigou e descobriu que eles continuavam operando no mercado com outros nomes. Descobrimos que a Cássia, mesma vendedora que fechou negócio comigo, atendia em outras construtoras chamadas Pedra Viva e Hastiforme”, afirmou o médico. “No nosso grupo tem cerca de 20 pessoas, de vários endereços diferentes, que registraram boletim de ocorrência contra eles no 24° DP da Penha, e nenhuma investigação avançou. Foi necessária uma tragédia que custou a vida de seis pessoas para esses golpistas serem responsabilizados e procurados pela polícia. Em quantas pessoas eles passaram a perna antes da queda do prédio Sobrados na Rua Colatina, comprados por Caroline Brito e o cunhado, mas exibido para outros clientes do casal de golpistas. Acervo pessoal Os cerca de 20 compradores lesados adquiriram casas e apartamentos em oito endereços da Zona Leste. Cinco deles constam na relação de empreendimentos embargados pela gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) após o acidente do último sábado (12): Rua Jaborandi, 68; Avenida Padres Olivetanos, 455; Rua Colatina, 577; Rua Guaiaúna, 369; Rua Padre João, 685. Outras três obras ligadas às construtoras ainda não tiveram os alvarás suspensos: Rua General Dias, 274; Rua Amaro Bezerra Cavalcanti, 435; Rua Ubajara, 120. A arquiteta Caroline Brito, que também comprou uma casa da New Home, espera que a prisão dos responsáveis ajude a solucionar os processos que correm na Justiça contra as duas empresas, na tentativa de reaver parte dos R$ 240 mil que ela e o marido pagaram. Eles compraram um sobrado em 2022 que nunca foi entregue pela construtora. “Eles são uma quadrilha de estelionatários. Depois que descobrimos que, após as denúncias contra a New Home, eles começaram a oferecer as casas que eu e meu cunhado tínhamos comprado para outras pessoas”, contou. Veja o momento exato de desabamento de prédio que deixou 6 pessoas mortas em SP “A gente não sabe se chegaram a vender pra outros compradores. Mas com a ajuda de uma amiga que fez contato com a Pedra Viva, ela foi levada para conhecer as três casas que já tinham dono na Rua Colatina. Uma era minha, a outra do meu cunhado e a terceira, do dono original do terreno”, explicou Carol Brito. Ela registrou queixa de estelionato no 10° Distrito Policial da Penha, onde outros colegas do grupo também fizeram queixa contra o casal Cristiano e Isis. Embora não esteja formalmente no papel como sócio das duas construtoras, os clientes afirmam que Ronaldo, pai de Cristiano e único dos três que está preso, era uma espécie de relações públicas das duas empresas. O grupo diz que deve ingressar no Ministério Público com uma ação contra o trio e espera que promotores e fiscais da Prefeitura de São Paulo ajudem-nos a reaver os prejuízos milionários. “O Ronaldo apresentava os imóveis, falava dos projetos e ajudava na negociação dos contratos e etc. Nós esperamos realmente que a prisão deles todos nos ajude a achar uma solução jurídica para os nossos prejuízos. Por que eles não têm bens em nome deles. Talvez os promotores e fiscais da prefeitura ajudem a mapear bens em nome de parentes e laranjas para que sejam desapropriados e devolvam alguma coisa para a gente, terminando com esse pesadelo”, disse Caroline Brito. “Eu já achava que eles deveriam ter sido presos há pelo menos dois anos, após tantos golpes terem sido registrados no 24° DP e no 10° DP. Mas infelizmente precisou recair também seis homicídios contra eles para que isso acontecesse, e as prisões fossem decretadas”, contou Alexandre Viveiros. 29 empreendimentos embargados Prédio residencial da New Home em construção na Rua Amaro Bezerra Cavalcanti, na Penha Reprodução/Google Street View A Prefeitura de São Paulo determinou a paralisação de 29 empreendimentos ligados às construtoras New Home e Hastiforme, responsáveis pelas obras de um edifício que desabou na Penha, Zona Leste da capital, matando seis pessoas no último sábado (12). A medida cautelar abrange desde canteiros de obras até processos de licenciamento ainda pendentes de avaliação pelos órgãos municipais. A suspensão foi determinada pela Controladoria Geral do Município (CGM) e busca "resguardar o interesse público" enquanto são apuradas as causas do acidente e as possíveis responsabilidades dos envolvidos, segundo a prefeitura. O casal Isis de Freitas Rodrigues Brandão e Cristiano Salgado Vivaqua foragidos e responsáveis pelas construtoras New Home Incorporadora e Hastiforme Projetos e Construção. Reprodução O g1 obteve a relação dos processos suspensos pela prefeitura e verificou que os empreendimentos estão espalhados principalmente pela Zona Leste cidade. Do total, 21 estão vinculados à New Home e oito à Hastiforme. Dos 29 projetos atingidos pela medida cautelar, apenas oito possuem alvará deferido (aprovado), enquanto os demais pedidos constam como indeferidos, em tramitação ou pendentes de regularização administrativa. A suspensão determinada pela gestão Ricardo Nunes prevê a realização de vistorias extraordinárias em todos os canteiros de obras ativos vinculados aos investigados, com participação das subprefeituras responsáveis e da Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento (SMUL), para verificar condições de segurança estrutural e adotar eventuais medidas de interdição administrativa. Prédio que ruiu tinha histórico de embargos e ação judicial O prédio que desabou na Rua Tequici, na Penha, tinha histórico de irregularidades. Segundo a prefeitura, a construção já havia sido alvo de fiscalizações, multas e de uma ação judicial ajuizada pelo município para obter a demolição do que era considerado uma obra irregular. A administração afirma que uma das multas aplicadas chegou a R$ 119 mil e que a Justiça concedeu liminar determinando a paralisação dos trabalhos. Em 2022, um novo projeto foi apresentado para o terreno. A prefeitura sustenta que o alvará concedido em 2023 autorizava uma nova edificação, mas exigia expressamente a demolição de uma estrutura existente com cerca de seis pavimentos. A suspeita investigada pela CGM e pela Polícia Civil é que essa condição não tenha sido integralmente cumprida. A apuração também busca esclarecer a atuação da fiscalização municipal. Em depoimento prestado à CGM nesta semana, Viviane Rodrigues de Palma afirmou que a vistoria realizada em 2024 ocorreu apenas pelo lado de fora do imóvel, pois ela não conseguiu acessar a construção. Segundo a servidora, não havia trabalhadores no local no momento da inspeção, e o prédio aparentava estar abandonado. Veja o momento exato de desabamento de prédio que deixou 6 pessoas mortas em SP O depoimento contrasta com o relatório assinado pela própria servidora após a inspeção. No documento, Viviane registrou que a obra estava em fase final da execução estrutural e concluiu que a demolição exigida pela prefeitura havia sido realizada "em sua integralidade", dando lugar a uma nova edificação em andamento. A Polícia Civil também investiga se os responsáveis pela obra tinham conhecimento prévio de problemas estruturais. Testemunhas relataram aos investigadores a existência de rachaduras em imóveis vizinhos antes do desabamento. As causas do acidente, contudo, ainda dependem dos laudos periciais. Em nota enviada à TV Globo, a New Home Construtora disse que permanece à disposição das autoridades e está prestando apoio às famílias atingidas pela tragédia na Rua Tequici. Já a defesa de Cristiano Salgado Vivaqua e Isis de Freitas Rodrigues Brandão afirmou que ambos pretendem se apresentar voluntariamente às autoridades e colaborar com as investigações. Em nota pública, os advogados sustentam que os dois não foram formalmente intimados para depor e negam que estejam foragidos. Segundo a defesa, eles se afastaram por questões de segurança após receberem ameaças, inclusive contra seus filhos, e deverão prestar esclarecimentos ainda neste mês. Imagens mostram evolução da obra do prédio que desabou da Zona Leste de SP Reprodução/TV Globo

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/09/17/construtora-de-predio-que-desabou-tem-historico-de-golpes-milionarios-e-atraso-na-entrega-de-casas-ha-3-anos-em-sp.ghtml


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