Banhos de mar, saudade da mãe e descoberta da literatura: a infância de Clarice Lispector no Recife

  • 18/01/2026
(Foto: Reprodução)
Como foi a infância de Clarice Lispector no Recife Uma cidadã pernambucana que fez do Recife mais do que sua casa e deixou essa memória eternizada na literatura. Assim também foi Clarice Lispector (1920-1977). Nascida na Ucrânia sob o nome de Chaya Pinkhasovna Lispector, aquela que por vezes é considerada a maior escritora brasileira cresceu na capital pernambucana, dos 4 aos 14 anos de idade. Fugindo da perseguição aos judeus na Europa, os Lispector passaram um tempo em Maceió antes de se estabelecerem em Pernambuco. Para Lourival Holanda, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e presidente da Academia Pernambucana de Letras, a infância no Recife foi decisiva na formação da autora. ✅ Receba no WhatsApp as notícias do g1 PE "A passagem dela por Recife é a verdadeira infância dela, que é uma das chaves mais delicadas para formação de um escritor. (...) Ela vem com a família para fugir daquela perseguição aos judeus. Então, ela chega destituída de pessoa e ela se restitui na linguagem, e é no Recife. É a sensação da descoberta, de uma pátria. Recife é uma pátria para ela", afirmou. Nesse período em terras pernambucanas, a futura escritora morou em três endereços no bairro da Boa Vista, área central da cidade, como conta o historiador Henrique Inojosa no livro “Clarice Lispector: no coração do Recife”. "O sobrado no qual a família Lispector se estabeleceu quando chegou ao Recife ficava no número 387, na praça Maciel Pinheiro, esquina da Travessa do Veras com a Rua do Aragão. Ficaram lá até por volta de 1928. Depois, os Lispector se mudaram para a Rua da Imperatriz, número 173, segundo andar, deslocando-se posteriormente para a mesma rua, no número 21, no ano de 1931. Em 1933, a família passou a habitar o último endereço no Recife: uma casa comprada na Avenida Conde da Boa Vista, número 178", diz um trecho do livro. A primeira casa, localizada na Praça Maciel Pinheiro, é hoje propriedade da Santa Casa de Misericórdia. O espaço foi cedido à Associação Casa Clarice Lispector (ACCL), que vai transformar o sobrado em um museu dedicado à vida e à obra da escritora (saiba mais abaixo). As vivências na capital pernambucana serviram de inspiração para a literatura clariceana. Elas aparecem, principalmente, no livro "Felicidade Clandestina", que reúne contos como "Cem Anos de Perdão", no qual ela rememora momentos da infância, sem contar a narrativa que dá nome ao livro, sobre a descoberta do prazer pela leitura quando criança. Outro conto dessa antologia é "Restos de Carnaval", que fala do carnaval recifense e aborda a doença da mãe, Marieta (ou Mania) Lispector, que sofria de paralisia progressiva. A morte da mãe, em 1930, marcou profundamente a trajetória pessoal e literária de Clarice, segundo Lourival Holanda. Marieta morreu no Recife e está sepultada no Cemitério Israelita, no bairro do Barro, na Zona Oeste da cidade. "É aqui [no Recife] que ela se formou e educou a sensibilidade dela. Ela se faz escrever escritora a partir de Recife. Tem um dado muito cruel, e curioso, que é aqui que morre a mãe dela, ela não tem 10 anos. Então, esse amor materno, ela transfere para essa outra coisa que é a língua materna. Ela faz um investimento afetivo enorme em cima da língua [portuguesa]. Ela escolhe a língua como uma espécie de procuração, de satisfação, de prazer. (...) A linguagem para ela é uma coisa preciosíssima", conta. Retrato de Clarice Lispector, de autoria desconhecida, sem data. Acervo Clarice Lispector/IMS Banho de mar em Olinda A morte da mãe de Clarice Lispector também fortalece o hábito da família de tomar banho de mar em Olinda, que o pai da autora, Pedro (ou Pinkouss) Lispector, acreditava fazer bem para a saúde. Como conta Clarice Hoffmann, autora da novela gráfica "Pedra D'Água", que aborda o Recife de Clarice em paralelo com a cidade nos dias atuais. "Ela tem um conto lindo que fala sobre o pai dela, que, depois que a mãe dela faleceu, ele dizia que era saudável tomar banho em jejum de madrugada. Então, eles saíam em um bonde da Conde da Boa Vista [no Recife] e vinham até o Carmo [em Olinda] para tomar banho de mar. E depois voltavam, e ele dizia que era bom passar um tempo com a água de sal. Então, eles só tiravam a água de sal em casa", disse. Os detalhes sobre o trajeto e o dia festivo perto do oceano também foram transformados em literatura na crônica "Banhos de Mar", presente em seu livro "A Descoberta do Mundo". Por volta de 1935, Pedro Lispector e as três filhas, Elisa, Tânia e Clarice, se mudaram para o Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida, conforme explica a cineasta Taciana Oliveira. Ela é diretora do filme “Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo”, que reúne entrevistas com amigos e familiares da escritora. "O pai, numa tentativa de melhorar, de ter melhores condições de vida, vai com elas para o Rio de Janeiro. Anos depois, ele falece e elas ficam juntas. Tânia já era casada, e as duas irmãs (Clarice e Elisa) vão morar com Tânia", contou. Ginásio Pernambucano Foto de arquivo de Clarice Lispector em um dos corredores do Ginásio Pernambucano em maio de 1976 Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa Durante o período em que viveu no Recife, Clarice Lispector estudou em três instituições de ensino da cidade. Ela passou pela Escola João Barbalho, pela Escola Israelita do Brasil e pelo Ginásio Pernambucano, todos na Boa Vista. Fundado em 1825, o Ginásio Pernambucano completou 200 anos em 2025 e é a escola mais antiga em funcionamento no Brasil. "O Ginásio Pernambuco, ela fez um esforço muito grande para passar [para entrar] porque era muito difícil. (...) Tem uma particularidade também para ela porque no Ginásio ela reencontra um amigo chamado Leopoldo Nachbin [renomado matemático], com quem tinha estudado no João Barbalho. (...) E nesse reencontro, eles são convidados a fazer uma prova para passar de nível, e Clarice fica com muito medo dessa prova porque achava que era porque eles eram muito levados. Então, ela escreve a crônica 'As grandes punições'", disse o historiador Henrique Inojosa. No caminho para a escola, Clarice já demonstrava sensibilidade para observar cenas do cotidiano que mais tarde apareceriam em sua literatura, como conta o professor Lourival Holanda. "A caminhada para o colégio, a descoberta de coisas absurdas, como a prostituição, que ela já via. Era menina, mas ela percebia isso ali quando passava pela Praça Maciel Pinheiro para o colégio. Então, ela percebia e diz assim: 'Ali eu conheci o horror'. Essa palavra é muito forte para uma criança. Ela, criança, percebia aquilo. A rua de cheiros fortes, como ela disse. E ela diz uma coisa que eu acho muito bonita: 'o Recife com calor de fruta'", afirmou o professor. Desde cedo, Clarice se dedicou à escrita. Ainda criança, produzia contos, revisava textos de colegas e tentava publicar seus trabalhos. "Ela escreve desde cedo e, com os seus 10 ou 12 anos, já escreve alguns contos, corrige trabalho dos colegas. E começa a tentar publicar aquilo", informou Lourival Holanda. De acordo com a cineasta Taciana Oliveira, um dos primeiros impulsos criativos da autora surgiu depois que Clarice assistiu a uma peça no Teatro Santa Isabel. "Ela situa [durante entrevista gravada] que teve o primeiro impacto que pensou em escrever (...). Depois que ela saiu da peça, foi para casa e escreveu um texto em três atos. Então, Recife realmente marca pela construção dela de querer escrever, de querer produzir", afirmou. Conforme o historiador Henrique Inojosa, o interesse de Clarice pela arte e pela cultura já era perceptível na infância, estimulado pelo ambiente familiar e pelo incentivo do pai ao contato com a música e a leitura. "Ela lembra do nome dessa peça, que depois ela perdeu, e ela lembrava do nome da peça que era 'Pobre menina rica'. Então, eu acho que Clarice no Recife era muito atenta à cultura, à leitura, muito pelo pai porque o pai era pobre, mascate, mas ele teve a sensibilidade de comprar um piano para as filhas estudarem, e ela descreve isso na crônica 'Lições de Piano'", contou. Nessa época, segundo a cineasta Taciana Oliveira, Clarice chegou a enviar textos para uma coluna destinada a jovens escritores em um jornal da cidade. "Ela enviava textos para o Diario de Pernambuco, todos os textos dela eram recusados", disse. Clarice Lispector se tornou cidadã pernambucana em 2020, ano do seu centenário de nascimento, título concedido pela Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). No mesmo ano, ela também foi reconhecida como patrona da literatura do estado, num projeto de autoria do deputado estadual Professor Paulo Dutra (PSB). Ela também faz parte do conjunto de estátuas que compõem o Circuito da Poesia, homenagem feita aos escritores que tiveram a vida e a obra ligadas a Pernambuco. Museu Clarice Lispector Da esquerda para direita: Mania, Clarice e Pinkouss (sentados); Elisa e Tania (em pé), no Recife, na década de 1920 Acervo pessoal Após anos em situação de abandono e de falta de investimentos, o sobrado localizado na Praça Maciel Pinheiro, onde a escritora passou a infância e parte da adolescência, no Centro do Recife, vai abrigar um museu, ainda sem previsão de abertura. O projeto será executado pela Associação Casa Clarice Lispector (ACCL), que recebeu da Santa Casa de Misericórdia, em abril de 2024, a posse do imóvel, num comodato — tipo de contrato de empréstimo — com duração de 25 anos. De acordo com Moisés Wolfenson, presidente da ACCL, os primeiros projetos foram aprovados no Ministério da Cultura e estão na fase de captação de recursos junto às empresas com a contraproposta de dedução de imposto por meio da Lei Rouanet. "A gente apresentou um projeto de restauro total do prédio com arquitetura e engenharia e conseguiu a aprovação pelo Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac). (...) E já contempla esse projeto, que dá aproximadamente 7 milhões, sem contar a parte museológica", explicou. De acordo com Moisés, o incentivo fiscal para empresas que querem apoiar o projeto pode deduzir até 4% do Imposto de Renda devido, enquanto pessoas físicas podem deduzir até 6%. Segundo ele, é uma forma de contribuir para a história da cidade. "O acordo, não oneroso, tem duração de 25 anos e reafirma o compromisso institucional da Santa Casa com a valorização da cultura e a preservação do patrimônio. Assim, o imóvel passa a cumprir uma destinação cultural compatível com sua história e significado para a sociedade", afirmou. VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias

FONTE: https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2026/01/18/banhos-de-mar-saudade-da-mae-e-descoberta-da-literatura-a-infancia-de-clarice-lispector-no-recife.ghtml


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